terça · semana 39 · 2026
a semana
da crowd
21 a 27 de setembro de 2026
10 discos saídos a 25 de setembro: Gilla Band em destaque, mais Protomartyr, Blondshell, Gurriers, Julia Jacklin, Nothing But Thieves, Penelope Isles, M83, Keo e Adult DVD.
10 discos


01

Protomartyr
— Hotel Usona
álbum
LP · 25 set 2026 · Domino
Dave Fridmann (Flaming Lips, MGMT) na produção, agora pela Domino. Metáfora de um hotel decadente para falar de declínio social e vazio espiritual. Metais e teclados finalmente centrais, não decoração. Comecem por "The Old Hotel".
Hotel Usona é o disco mais orquestrado que os Protomartyr já fizeram, produzido por Dave Fridmann (Flaming Lips, MGMT) e editado pela Domino. Joe Casey continua a rosnar poesia urbana sobre Detroit, mas desta vez com metais e teclados como parte estrutural da composição e não decoração — o irmão do produtor, Jon Fridmann, entra em trompete, trombone e flugelhorn ao lado de Greg Ahee, Scott Davidson e Alan Leonard. O título brinca com "Usona", um hotel decrépito que serve de metáfora para uma América em decadência, entre embriaguez, ruína e incerteza existencial. "The Old Hotel" mistura post-punk com jazz noir, "The Knife Dream" abre-se em arranjos orquestrais, e "Feed the Sewer" volta ao punk mais abrasivo da banda antes do fecho contemplativo de "Checking Out". Referência incontornável do post-punk americano, outra vez.
crítica 87 · utilizadores 82

02

Blondshell
— Violins
álbum
LP · 25 set 2026 · Partisan
Terceiro álbum de Sabrina Teitelbaum, menos de 18 meses depois do anterior — ritmo vertiginoso. Entre a delicadeza e a dureza, ansiedade geracional e relações complicadas. "Two-Fried" tem a Samia a co-assinar. Cresce disco após disco.
Sabrina Teitelbaum não abranda: Violins é o terceiro álbum que assina como Blondshell, e chega menos de ano e meio depois do antecessor, If You Asked For A Picture. O som continua a viver entre o indie rock cru e o pop-rock mais melódico dos anos 90, mas a escrita ganhou uma dualidade nova — de um lado a delicadeza, do outro a dureza das verdades por dizer, entre a ansiedade da sua geração e relações que nunca são simples. A faixa-título é o centro gravitacional do disco, sobre erguer-se acima da adversidade sem perder a ternura; "Sea Legs" oferece um respiro sonhador, e "Fur Elise" fecha em tom de esperança quase forçada. "Two-Fried" tem a assinatura da Samia como co-autora, mais uma prova de como Teitelbaum continua a atrair a companhia certa. Editado pela Partisan, é o disco que confirma que o sucesso da estreia não foi golpe de sorte — cresce a cada edição.
crítica 83 · utilizadores 74

03

Gurriers
— Nobody's Coming To Save You
álbum
LP · 25 set 2026 · Play It Again Sam
Segundo álbum, depois da estreia "Come and See" em 2024. O nome vem de uma gíria de Dublin para miúdos de rua. Noise-rock que agora bebe de post-punk, grunge, alt-dance e hip-hop experimental. "Drones" soa a Radiohead com Massive Attack.
Gurriers pegam no nome de uma gíria dublinense para miúdos de rua irrequietos, e é essa energia desordeira que atravessa Nobody's Coming To Save You, o segundo álbum da banda depois da estreia Come and See (2024), editado pela Play It Again Sam. O quinteto — Dan Hoff na voz, Ben O'Neill e Mark MacCormack nas guitarras, Charlie McCarthy no baixo e Pierce O'Callaghan na bateria — expande o noise-rock das origens para post-punk, grunge, alt-dance e texturas de hip-hop experimental, sem perder a urgência. As letras deixam-se de metáforas fáceis: saúde mental, alienação, consumismo, anti-militarismo e dependência, tudo dito de frente. "Drones" é o ponto alto, com texturas electrónicas que lembram o Kid A dos Radiohead a cruzar com os Massive Attack; "Party Lines" é dance-punk de alta octanagem contra a guerra, e "Crybaby" fecha o disco quase em fluxo de consciência sobre dependência. Continuam a ser a aposta mais urgente da nova vaga de post-punk irlandês.
crítica 80 · utilizadores 76

04

Julia Jacklin
— The Gem
álbum
LP · 25 set 2026 · 4AD
Quarto álbum, produzido por Robert Muinos, dois anos depois de "Pre Pleasure". Sobre a linha fina entre independência e isolamento — quando proteger-se de alguém se torna sabotagem. "Walk On Me" é o ponto alto emocional do disco.
Depois de Pre Pleasure (2022), Julia Jacklin volta com The Gem, o quarto álbum, produzido por Robert Muinos e editado pela 4AD. É o disco mais interrogativo que já fez: questiona a distância entre imaginar-se como pessoa que ama e realmente praticar esse cuidado, e explora como a auto-protecção pode, sem se dar por isso, transformar-se em auto-sabotagem. "Brand New" abre o disco a tratar a reinvenção quase como amnésia voluntária; "God Sometimes" discute autodeterminação contra intervenção divina; "Real Life" usa humor negro para contrastar intenção e acção; e "Walk On Me", com seis minutos, é o ponto alto emocional — um crescendo sobre vergonha e cumplicidade. O fecho, "I Wish", reconhece a sobrevivência sem esconder o custo da solidão. Continua a ser uma das vozes mais honestas do folk-rock australiano contemporâneo, e talvez o seu disco mais desarmante até hoje.
crítica 78 · utilizadores 78

05

Nothing But Thieves
— Stray Dogs
álbum
LP · 25 set 2026
Produção de Dominic Craik, três anos depois do número um "Dead Club City". Entre o nu-metal, o grunge e o rock de estádio, a testar o alcance vocal de Conor Mason. "American Confidence" resume bem o registo. Banda britânica em forma.
Três anos depois de Dead Club City ter chegado ao número um no Reino Unido, os Nothing But Thieves voltam com Stray Dogs, produzido por Dominic Craik — também responsável pelos riffs da banda — com um som mais terreno e feroz do que o disco anterior. Southend continua a ser a base de uma banda que nunca teve medo de experimentar, e desta vez as referências vão de Queens of the Stone Age e Muse a Smashing Pumpkins, com nu-metal e grunge a entrarem pela porta do meio. As letras giram à volta de comunidade, pertença e experiência partilhada, longe do introspectivo isolado que por vezes os define. "Evolution" é a faixa mais imediatamente cantável, a lembrar Gaslight Anthem e Don Henley; "Baby Kool (Evelyn)" tem tudo para ser o hit mainstream do disco; e "American Confidence" cruza nu-metal com grunge para mostrar a amplitude vocal de Conor Mason. Um salvo divertido e com mordida, exactamente o que se esperava deles neste momento da carreira.
utilizadores 77

06

em destaque
Gilla Band
— Pugnello
álbum
LP · 25 set 2026 · Rough Trade
Produzido pelo baixista Daniel Fox: o disco mais pessoal da banda, sobre o luto pelo pai de Dara Kiely e um diagnóstico de esquizofrenia, em ruído industrial e pop desfigurado. Melhor nota da crítica da semana.
Pugnello chega como uma confissão disfarçada de barulho. É o disco mais pessoal que os dublinenses Gilla Band já fizeram, produzido pelo próprio baixista Daniel Fox, e nasce do luto de Dara Kiely pela morte do pai e de um diagnóstico de esquizofrenia que o vocalista processa canção a canção — "Alogia" encara-o de frente, sem metáforas. Sonoramente é tudo o que se espera deles e mais: electrónica, post-rock e metal industrial amassados num "anti-pop" que grita mais do que canta, com Alan Duggan Borges e Adam Faulkner a manter o caos sob controlo rítmico. A crítica irlandesa já lhes chamou a força mais revolucionária da música do país, a par de Joyce e Flann O'Brien na forma como transformam o surreal em algo reconhecivelmente irlandês. Não é fácil de ouvir de uma assentada, mas "The Angelus" a abrir e "At the Gallop" a fechar mostram porque vale a pena o esforço. Editado pela Rough Trade, é a nota mais alta da crítica esta semana — e não por acaso.
crítica 88 · utilizadores 82
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07

Penelope Isles
— 3
álbum
LP · 25 set 2026 · Bella Union
Terceiro álbum, quatro anos depois de "Which Way to Happy" — entretanto, os irmãos Jack e Lily Wolter fizeram discos a solo. Gravado na Ilha de Lewis, Escócia, a 30 km da loja mais próxima. "Moonwalker" é o ponto alto, dream pop com shoegaze.
Os irmãos Jack e Lily Wolter deixaram Brighton para trás — pelo menos durante a gravação — e foram parar à Ilha de Lewis, na Escócia, a cerca de trinta quilómetros da loja mais próxima, para fazer 3, o terceiro álbum dos Penelope Isles, editado pela Bella Union. Chega quatro anos depois de Which Way to Happy, um intervalo em que ambos os irmãos seguiram para carreiras a solo antes de voltarem a juntar-se com o baterista Joe Taylor. O isolamento ouve-se: há uma melancolia sazonal e uma introspecção que antes não estava tão à superfície, ainda que as letras continuem a citar Brighton por nome. "Moonwalker" é descrita como a canção mais forte do disco, com uma textura mais shoegaze; "Bon-bains" traz a voz íntima de Lily sobre um solo de guitarra distorcido; e "Thinking Seat" é dream pop clássico dos Penelope Isles. A crítica já o considera o disco mais forte e mais gratificante da carreira da banda até agora.
crítica 74

08

M83
— I Wrote You A Letter
álbum
LP · 25 set 2026 · Other Suns
Décimo álbum de Anthony Gonzalez, editado pela sua própria Other Suns. Depois da escala grandiosa de "Fantasy", agora território mais íntimo — várias faixas nem têm voz. "Opera" é quase uma sala imaginária feita de órgão. Nome incontornável do synth-pop francês.
Dez álbuns depois, Anthony Gonzalez continua a reinventar a escala dos M83 — desta vez para dentro. I Wrote You A Letter, editado pela sua própria editora Other Suns, troca o grandioso de Fantasy (2023) por um registo mais íntimo e reservado, onde a desilusão funciona menos como desapontamento e mais como remoção de uma venda dos olhos: uma forma nova de olhar para o mundo. Há várias faixas praticamente instrumentais, construídas à base de sintetizadores, cordas e orquestração, com as letras deliberadamente simples para deixar espaço à sofisticação musical. "Blister Sunrise" abre com optimismo melancólico e voz a planar; "Opera" é largamente instrumental, com um órgão a criar um vasto espaço interior imaginado; e "Losing Ground", com os seus poliritmos, é um dos momentos mais fortes do disco. A capa, assinada por Jean-Philippe Talaga, já anuncia os temas de amanhecer e descoberta. Nome grande, sempre garantido para encher a pista.
utilizadores 79

09

Keo
— Put A Smile On For Me
álbum
LP · 25 set 2026
Estreia em álbum da banda londrina que tem já muitos seguidores fiéis. É nu-grunge lo-fi e alt rock, entre o grunge dos anos 90 e os primeiros Radiohead. Finn e Conor Keogh, fundadores dos Keo, viveram em Portugal parte da adolescência, e Finn diz que escreve melhor quando volta.
Há bandas que fazem a estreia com cautela e há quem a faça como os Keo: quase toda ao vivo, em dez dias, com produção deles próprios — os irmãos Finn Keogh (voz e guitarra) e Conor Keogh (baixo), com Jimmy Lanwern também na guitarra e Oli Spackman na bateria. Put A Smile On For Me é o primeiro álbum deste quarteto londrino, e a crítica britânica já lhe colou o rótulo de "nu-grunge" — nineties grunge, os primeiros Radiohead e os tons vocais de Ben Howard, tudo dito com urgência lo-fi. Há também uma ligação direta a Portugal: os irmãos Keogh passaram parte da adolescência no país — Finn viveu cá dos 14 aos 17 anos — enquanto cresciam a tocar no projeto de folk irlandês tradicional do pai, entre o Reino Unido, a Irlanda, os Estados Unidos e Portugal. Finn continua a dizer que prefere o ritmo de vida português a Londres e que compõe melhor quando lá volta, ainda que reconheça que não há propriamente uma cena musical portuguesa para seguir a carreira a sério — daí a mudança para Londres. As letras do disco mergulham de cabeça numa relação condenada ao fracasso: frustração, arrependimento, culpa, raiva e confusão, sem filtros. "Be Happy" abre o disco com ironia deliberada face ao título; "That's Me", "Loser", "Fly", "Pistol" e "Thorn" completam um alinhamento que não larga o ouvinte. A digressão de Outubro no Reino Unido esgotou antes de o disco sequer sair — e, para a comunidade Crowdmusic, há aqui um motivo extra de proximidade.
utilizadores 84

10

Adult DVD
— Adult DVD
álbum
LP · 25 set 2026 · Fat Possum
Seis elementos de Leeds, editados pela Fat Possum. O single "Cowboy On Aisle Three" nasceu de uma ida ao Lidl que descambou. Doze temas depois do EP "Next Day Shipping" (2024). Já tocaram no Great Escape e no SXSW — energia de festa pura.
Nome irónico, energia a sério: os Adult DVD são um sexteto de Leeds que já passou pelo Great Escape e pelo SXSW antes sequer de lançarem o primeiro álbum, e Adult DVD — o disco, homónimo da banda — chega agora pela Fat Possum, depois do EP Next Day Shipping (2024). Doze temas com títulos que dizem logo a que vêm — "Coffin Dodger", "World's Best Boss", "Ghillie Suit" — e um humor absurdista que não esconde a ambição indie rock por trás da piada. O single "Cowboy On Aisle Three" nasceu, segundo o vocalista Harry Hanson, de um momento perfeitamente banal: uma ida ao supermercado Lidl que descambou num impulso de comprar tudo. É essa mistura de quotidiano britânico e caos festivo que define o disco — uma banda feita para tocar ao vivo, com plateia a saltar. Revelação indie do ano segundo a NME e a Clash, já com reputação de animar qualquer sala.
utilizadores 74