Crowdmusic

terça · semana 38 · 2026

a semana
da crowd

14 a 20 de setembro de 2026

11 discos saídos a 18 de setembro: Emma Ruth Rundle em destaque, mais Beck, Echo & the Bunnymen, beabadoobee, Agnes Obel, Boy Harsher, Slow Pulp, Feldup, Wasia Project, Whirr & Luster e Neil Young.

11 discos

Beck
foto · press shot oficial (Capitol)

01

Beck — Ride Lonesome

Beck
Ride Lonesome

álbum

LP · 18 set 2026 · Capitol

Sete anos depois de Hyperspace, o maior intervalo da carreira. Décimo quinto álbum, na linhagem de Sea Change e Morning Phase. Produção dele, mistura de Nigel Godrich. Melhor nota da crítica da semana.

Beck tem duas carreiras em paralelo: a do colagista irrequieto de Odelay e Midnite Vultures, e a do compositor triste e desarmado de Sea Change e Morning Phase. Ride Lonesome pertence claramente à segunda, e chega sete anos depois de Hyperspace — o maior intervalo entre discos da sua carreira. São doze canções produzidas por ele próprio e misturadas por Nigel Godrich, gravadas com boa parte dos músicos que o acompanham nestes registos desde Mutations. O resultado vive entre a country, a americana e a folk de cantautor dos anos 70, com arranjos espectrais que deixam muito espaço à volta da voz. A crítica respondeu com a melhor nota da semana; há quem lhe aponte alguma monotonia a meio, mas é difícil argumentar contra a beleza de tudo isto. Para quem ainda põe Morning Phase a tocar em Novembro, é o disco a ter.

crítica 81 · utilizadores 78

Echo & the Bunnymen
foto · press shot oficial (BMG)

02

Echo & the Bunnymen — Apples For Isaac

Echo & the Bunnymen
Apples For Isaac

álbum

LP · 18 set 2026 · BMG

Doze anos de silêncio e o disco mais luminoso que alguma vez fizeram. Clem Burke, dos Blondie, na bateria — morreu antes de o ver sair. Comecem por "Brussels Is Haunted".

Doze anos depois do último disco, Ian McCulloch e Will Sergeant voltam com o décimo terceiro álbum dos Bunnymen — e com uma história por trás que o torna mais pesado do que parece. Apples For Isaac estava praticamente pronto em 2021, mas o processo de revisões arrastou-se tanto que Clem Burke, o baterista dos Blondie que gravou as sessões, morreu antes de o ver publicado. O que sai agora é, paradoxalmente, o registo mais solar da discografia: onze canções curtas, com cordas, refrões abertos e aquela atitude de óculos escuros dentro de casa que nunca os largou. "Brussels Is Haunted", "The Honey" e "Lab Rats Ran" são os pontos altos. Para quem cresceu com Ocean Rain, é um regresso muito acima do que se podia esperar — e para os outros, é uma boa porta de entrada numa das discografias fundadoras do post-punk.

crítica 79

beabadoobee
foto · press shot oficial (Dirty Hit)

03

beabadoobee — Pylon

beabadoobee
Pylon

álbum

LP · 18 set 2026 · Dirty Hit / Interscope

Quarto álbum e o mais barulhento de todos. Sonic Youth, Helium e Dinosaur Jr. a escorrer das guitarras. Isolamento, nostalgia e obsessão aos vinte e poucos. Bea Laus voltou zangada.

Depois do polimento de This Is How Tomorrow Moves, ninguém esperava que beabadoobee desse meia-volta e regressasse ao ruído dos primeiros EPs. Pylon é o quarto álbum de Beatrice Laus e o mais volátil de todos: guitarras saturadas, bateria a estalar e uma escrita que não esconde o isolamento, a nostalgia e a obsessão amorosa dos últimos anos. Ouve-se com clareza o que andou a ouvir — Sonic Youth, Helium, Dinosaur Jr. —, mas a estrutura pop continua lá, e é isso que o separa da maior parte do revivalismo indie dos anos 90. É o único disco desta semana com consenso claro entre crítica e público, e o mais completo da carreira dela de ponta a ponta. Da nossa lista, é também o nome com maior probabilidade de encher uma sala em Lisboa amanhã de manhã.

crítica 74 · utilizadores 80

Agnes Obel
foto · press shot oficial (Deutsche Grammophon)

04

Agnes Obel — The Meaning of Flowers

Agnes Obel
The Meaning of Flowers

álbum

LP · 18 set 2026 · Deutsche Grammophon

Seis anos depois de Myopia e agora na Deutsche Grammophon. Doze canções escritas, gravadas e produzidas sozinha em Berlim, sobre gravidez e metamorfose. Dedicado à filha.

Seis anos depois de Myopia, Agnes Obel volta — e volta assinada pela Deutsche Grammophon, o que diz quase tudo sobre a direcção deste disco. The Meaning of Flowers foi escrito, arranjado, gravado e produzido inteiramente por ela no seu estúdio em Berlim, com convidados a entrar apenas ao violino, violoncelo, lap steel, harmónio, flauta e saxofone. São doze canções sobre a sensação de ligação a tudo o que é vivo que diz ter experimentado durante a gravidez, com fontes tão distintas como a poesia de Enheduanna, os textos de Hannah Arendt e Emanuele Coccia, e o pop dinamarquês dos anos 80 e 90. A voz aparece muitas vezes alterada na altura, quase irreconhecível, e o piano continua a ser o centro de gravidade. O disco é dedicado à filha. "Laymelli" é o melhor ponto de partida.

utilizadores 81

Boy Harsher
foto · press shot oficial (Atlantic)

05

Boy Harsher — Get Mean

Boy Harsher
Get Mean

álbum

LP · 18 set 2026 · Atlantic

Darkwave assinada pela Atlantic — sim, leram bem. Jae Matthews e Augustus Muller separaram-se em 2024 e continuaram em digressão. Doze temas gravados em oito sítios diferentes.

Poucas assinaturas de major fizeram tão pouco sentido no papel e tanto sentido na prática: os Boy Harsher, que construíram tudo à margem, editam Get Mean pela Atlantic. É o terceiro álbum de estúdio do duo de Massachusetts e o mais claro, mais pop e mais oitentas de todos — o que não o torna mais leve. Jae Matthews e Augustus Muller separaram-se enquanto casal em 2024 e continuaram a subir ao palco juntos todas as noites, e os doze temas do disco vivem dessa situação impossível: amor, perda e sobrevivência, ditos com a frieza habitual dos sintetizadores. Foi gravado em oito locais diferentes entre os Estados Unidos, o México e a Itália, e ouve-se essa dispersão. Continua a ser música para uma sala às escuras — só que agora com refrões.

utilizadores 77

Emma Ruth Rundle
foto · press shot oficial

06

Emma Ruth Rundle — These Killing Times

em destaque

Emma Ruth Rundle
These Killing Times

álbum

LP · 18 set 2026 · Errant Child

Sexto álbum, na sua própria editora e outra vez com banda inteira. Jess Gowrie (Chelsea Wolfe), Gina Gleason (Baroness) e Marissa Nadler acompanham. Queria fazer um disco esperançoso. Conseguiu.

Emma Ruth Rundle diz que quis fazer um disco esperançoso — o que, vindo de quem assinou Engine of Hell, soa quase a provocação. These Killing Times é o sexto álbum, sai pela editora dela própria, a Errant Child, e marca o regresso ao formato de banda inteira depois dos registos mais despidos dos últimos anos. Foi produzido com Sonny DiPerri, gravado nos LMNL Studios em Santa Monica e no Octopus Beak em Los Angeles, e tem uma dinâmica de silêncio e explosão que não se lhe ouvia há bastante tempo. A banda que juntou é por si só um argumento: Jess Gowrie (Chelsea Wolfe), Nick Reinhart (Tera Melos), Gina Gleason (Baroness), Marissa Nadler e Amelia Baker (Cinder Well). As oito canções alternam entre o pessoal e o político, e "Anvil" e "Human Kindness" são as portas de entrada óbvias. É o melhor resultado de público entre os nomes estabelecidos da semana — e é a nossa capa.

utilizadores 85

pedir esta banda
Slow Pulp
foto · press shot oficial (ANTI-)

07

Slow Pulp — Melodie

Slow Pulp
Melodie

álbum

LP · 18 set 2026 · ANTI-

Terceiro álbum e o primeiro pela ANTI-. Entre a expansão de Yard e o nevoeiro de Moveys, com Elliott Kozel na produção. Menos guitarras, mais ideias. Disco da semana para a Stereogum.

Os Slow Pulp começaram em Madison e acabaram em Chicago, e nos últimos anos fizeram o percurso mais lento e mais sólido do indie rock americano. Melodie é o terceiro álbum, o primeiro pela ANTI-, e foi produzido por Elliott Kozel com Emily Massey e Henry Stoehr da própria banda. Em termos de som, fica algures entre a expansão de guitarras de Yard e o nevoeiro sonolento de Moveys: as guitarras ainda lá estão, sobretudo a meio do disco, mas há muito mais atenção às texturas de pop e às progressões inesperadas. A crítica dividiu-se — a Stereogum fez dele disco da semana, outros acharam-no repetitivo —, mas o público não teve dúvidas nenhumas. É o tipo de banda que sempre funcionou melhor num palco pequeno do que numa folha de notas.

crítica 68 · utilizadores 73

Feldup
foto · press shot oficial (Talitres)

08

Feldup — Towards Happiness

Feldup
Towards Happiness

álbum

LP · 18 set 2026 · Talitres

A melhor nota de público da semana. O francês entrou pela primeira vez num estúdio a sério, com banda, e saiu com post-punk paranóico de sotaque Windmill. Comecem por "Cover My Ears".

Feldup construiu uma base de público enorme longe de qualquer circuito tradicional, e Towards Happiness é o disco onde essa história muda de escala. É a primeira vez que entrou num estúdio a sério — o Apiary, de Amaury Sauvé, em Laval — e a primeira vez que levou banda: os Showerheads, com Alexandre Wettstein, Pierre Miceli e o próprio Sauvé na bateria. O plano inicial era um disco sobre cura; o que saiu foi o retrato de um quotidiano em espiral, entre picos de ruído paranóico e quedas frias e etéreas. A dívida à cena Windmill de Londres e ao post-punk é evidente, mas há aqui math rock, noise e shoegaze em doses iguais, e a Talitres — uma das melhores independentes francesas — soube exactamente onde o pôr. "Cover My Ears" foi o primeiro single. Maior nota de utilizadores da semana e, para nós, a descoberta a seguir de perto.

utilizadores 90

Wasia Project
foto · press shot oficial (AWAL)

09

Wasia Project — Nocturne

Wasia Project
Nocturne

álbum

LP · 18 set 2026 · AWAL

Álbum de estreia dos irmãos Will Gao e Olivia Hardy. Formação clássica torcida em art pop, soul e trip-hop, com o disco a escurecer à medida que avança. Começa na rua, acaba em casa.

Os Wasia Project são Will Gao e Olivia Hardy, irmãos, ambos com formação clássica, e chegaram aqui depois de anos a acumular público com EPs e singles — e, no caso dele, com um papel em Heartstopper que trouxe uma audiência inteira à conversa. Nocturne é finalmente o álbum de estreia, editado pela AWAL, e é bastante mais escuro do que aquilo que se conhecia deles: doze temas que pegam no piano e nas cordas de sempre e os atiram para dentro de produção de art pop, soul, trip-hop e dança. A sequência está pensada como uma noite inteira — começa com a pulsação de quem sai à rua e vai assentando até um fim quase doméstico. "2515", "Bleeding Gold" e "Whale Call" foram os singles. Crítica muito favorável e um público jovem a crescer depressa: candidato natural a uma sala média por cá.

utilizadores 81

Whirr & Luster
foto · press shot oficial (Free Whirl)

10

Whirr & Luster — Whirr & Luster

Whirr & Luster
Whirr & Luster

EP

EP · 18 set 2026 · Free Whirl

Split de shoegaze entre a velha guarda da Bay Area e a nova geração de Los Angeles. Quatro temas, dois de cada lado. Primeiro material dos Whirr em anos. Curto e a doer.

Um split entre duas gerações do mesmo género é sempre uma declaração, e este é particularmente claro. De um lado, os Whirr — cinco elementos da Bay Area que ajudaram a definir o shoegaze pesado da última década e que não editavam material novo há anos. Do outro, os Luster, de Los Angeles, formados com a ideia explícita de empurrar o género para a frente em vez de o reencenar. São quatro canções ao todo: "Spiral Again" e "Wish I Could Give You The World" dos primeiros, "Against the World" e "Forever" dos segundos, editadas pela Free Whirl em 12 polegadas, CD e digital. Há trip-hop e dream pop a entrar pelas margens, mas o peso é o de sempre. Funciona como um bom resumo do estado do shoegaze em 2026 — e como argumento para quem duvidava que o revivalismo ainda tinha fôlego.

utilizadores 73

Neil Young
foto · press shot oficial (Reprise)

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Neil Young — Second Song

Neil Young
Second Song

álbum

LP · 18 set 2026 · Reprise · com The Chrome Hearts

Álbum número cinquenta. Gravado no Shangri La com Lou Adler na produção, sete temas semi-acústicos. Dois deles escritos nos anos 60 e nunca editados. O tema-título tem quase doze minutos.

Second Song é o quinquagésimo álbum de estúdio de Neil Young — um número que já não significa grande coisa a este ritmo de edição, mas que vale a pena registar. É o segundo disco com os Chrome Hearts, gravado no Shangri La, em Malibu, e produzido por Lou Adler com os Volume Dealers (o próprio Young e Niko Bolas), a mesma equipa de Talkin' to the Trees. São sete canções, num registo semi-acústico e despojado, com o tema-título a estender-se por quase doze minutos — e a servir de primeiro single, o que também já não surpreende ninguém. A curiosidade está em "Casting Me Away from You" e "I'll Love You Forever", ambas escritas algures nos anos 60 e nunca editadas até agora. A crítica reagiu bem. Aos oitenta anos, continua a fazer discos com a pressa de quem tem coisas por dizer.

crítica 77

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