terça · semana 35 · 2026
a semana
da crowd
24 a 30 de agosto de 2026
9 discos saídos a 28 de agosto: Alabama Shakes em destaque, mais Interpol, Erykah Badu & The Alchemist, Dinosaur Jr., Russian Circles, DJ Dahi, Jim James, Mike D e The Linda Lindas.
9 discos

01
Interpol
— This Mirror Weighs a Ton
álbum
LP · 28 ago 2026 · Partisan
Primeiro disco na Partisan, com Andrew Wyatt na produção. Menos gelo, mais espaço para respirar. As guitarras do Kessler continuam a desenhar as mesmas figuras nervosas. "See Out Loud" é o pico.
Há discos dos Interpol que soam a Nova Iorque em Janeiro. Este soa a outra coisa: há ar entre os instrumentos, há espaço, há quase generosidade. This Mirror Weighs a Ton é a estreia da banda na Partisan e traz Andrew Wyatt — produtor mais habituado ao pop de grande formato — a mexer nos alicerces. O resultado não trai ninguém: as guitarras em espiral de Daniel Kessler continuam a desenhar figuras nervosas, a bateria de Sam Fogarino continua seca, e o barítono de Paul Banks continua a cantar como quem lê em voz alta uma carta que não devia ter aberto. O que mudou foi a moldura — entra dream pop, entra post-rock, entra o silêncio como parte do arranjo. "See Out Loud" e "Iron City" são o coração do disco; "Bird and The Serpent" fecha com quase seis minutos de escuridão bem gerida. Vinte e cinco anos depois de Turn On the Bright Lights, ainda há sítios por visitar.
crítica 81 · utilizadores 81
02
em destaque
Alabama Shakes
— I Must Be Dreaming
álbum
LP · 28 ago 2026 · Island
Uma década depois de Sound & Color, a banda da Brittany Howard volta com soul psicadélico de garganta rasgada. Mais sujidade do que polimento. "I Feel Hope Coming" arrepia.
Dez anos são muito tempo. Sound & Color saiu em 2015, ganhou Grammys, mudou a escala da banda — e depois Brittany Howard foi fazer discos a solo e o resto do mundo ficou à espera. I Must Be Dreaming, pela Island, é o regresso: soul psicadélico gravado com pouco polimento e muita gordura, órgão a zunir por baixo, guitarras a saírem do tom quando lhes apetece. A voz de Howard continua a ser um instrumento fora de escala — passa do sussurro ao grito dentro do mesmo compasso e nunca soa a truque. "I Feel Hope Coming" é o pico emocional, cinco minutos que crescem sem pressa; "Another Life" e "Waist Deep" mostram a banda em modo groove, mais solta do que nunca. É um disco que só fica inteiro ao vivo — e é por isso que interessa a quem vive de concertos.
crítica 81 · utilizadores 76
pedir esta banda03
Erykah Badu & The Alchemist
— Before the World Blows
álbum
LP · 28 ago 2026 · Control Freaq / Young
A colaboração que se pediu durante anos. A voz dela sobre os loops poeirentos dele. Convidados: Steve Lacy, Westside Gunn, DRAM. "To The Moon (Plan C)" é ouro.
Havia uma expectativa acumulada em torno deste encontro e, pela primeira vez em muito tempo, a expectativa não estragou nada. The Alchemist faz o que sempre fez — loops sujos, samples esfarrapados, bateria fora de eixo — e Erykah Badu instala-se por cima como quem se senta numa cadeira que já era dela. Before the World Blows sai pelas Control Freaq e Young e tem a paciência que falta a quase tudo o que se edita hoje: as canções demoram, os refrões não chegam quando se espera, e há sete minutos de abertura em "Echos" só a preparar o terreno. A lista de convidados é discreta mas certeira — Westside Gunn e Joi em "I Just Play A Part", DRAM em "Valentine", e Steve Lacy em "To The Moon (Plan C)", o momento mais bonito do disco. Neo-soul e jazz rap sem pressa de chegar a lado nenhum.
utilizadores 76
04
Dinosaur Jr.
— There Near
álbum
LP · 28 ago 2026 · Jagjaguwar
J Mascis continua a fazer exactamente o mesmo e ainda bem. Solos intermináveis, distorção a rebentar, melodias escondidas no ruído. Formação original intacta há quase 40 anos.
Não há surpresas num disco dos Dinosaur Jr. e essa é precisamente a questão. J Mascis, Lou Barlow e Murph continuam juntos — a formação original, quase quarenta anos depois — e There Near, na Jagjaguwar, é mais um capítulo de uma discografia que nunca precisou de se reinventar para continuar a fazer sentido. Onze canções, nenhuma passa dos cinco minutos, todas com o mesmo desenho: melodia doce enterrada debaixo de camadas de distorção, voz arrastada de Mascis, e o solo de guitarra que chega sempre um bocado mais tarde e um bocado mais alto do que seria razoável. "Several Got Away" abre com uma urgência que a banda não mostrava há uns discos; "Everything At Once" e "Put It Down" são das melhores coisas que assinaram nesta década. Aula de história do indie rock que ainda não acabou.
crítica 75 · utilizadores 77
05
Russian Circles
— Nine
álbum
LP · 28 ago 2026 · Sargent House
Nono disco, título honesto. Instrumental de Chicago, na Sargent House, a construir catedrais de post-metal sem uma palavra cantada. "Eluvial" são oito minutos de peso e beleza.
Há duas décadas que os Russian Circles fazem música sem letras e sem explicações, e há duas décadas que isso chega. Nine é, como o nome indica, o nono álbum do trio de Chicago, outra vez pela Sargent House, e mantém a fórmula que os tornou uma das bandas mais respeitadas do post-metal: guitarras em camadas, baixo a fazer de segunda melodia, bateria a comandar a arquitectura toda. Sete faixas, pouco mais de meia hora, e uma noção de dinâmica que a maior parte das bandas pesadas nunca aprende — aqui o silêncio vale tanto como o volume. "Eluvial" é a peça central, oito minutos que sobem e descem três vezes antes de decidirem para onde vão; "Empath" e "Seventh Seal" são mais directas e igualmente esmagadoras. Território de quem ouve Mono, Deafheaven ou Godspeed — e de quem sabe que estas bandas se ouvem melhor numa sala pequena e escura.
utilizadores 81
06
DJ Dahi
— Black Boy (Alternative)
álbum
LP · 28 ago 2026 · ALTER
O produtor de meia discografia do Kendrick a assinar em nome próprio. Convidados: Kendrick, Childish Gambino, Moses Sumney, Vince Staples. "How To Pray" justifica o disco todo.
DJ Dahi passou uma década a construir os discos dos outros — Kendrick Lamar, Drake, Vince Staples, a lista é longa — e Black Boy (Alternative), na ALTER, é o momento em que assume o nome próprio. Como quase sempre acontece quando um produtor faz o seu disco, o resultado é mais coeso do que a lista de convidados faria supor: R&B alternativo cruzado com jazz rap e soul psicadélico, mais interessado em textura do que em refrão. E que convidados — Kendrick Lamar e Amber Mark em "How To Pray", Childish Gambino em "Running", Moses Sumney em "Find Me", Vince Staples e Channel Tres a abrirem o disco, Ravyn Lenae e Elmiene a fecharem-no. "How To Pray" é o pico e justifica sozinha a escuta. Um disco que prova, mais uma vez, que os produtores costumam fazer os melhores discos de autor.
utilizadores 74
07
Jim James
— Wowed Out
álbum
LP · 28 ago 2026 · ATO
O líder dos My Morning Jacket a solo, na ATO. Art pop e neo-psicadelismo, falsete a flutuar por cima de tudo. "Home (Green)" são quase oito minutos de deriva. Disco de fim de tarde.
Jim James é conhecido sobretudo como a voz e a guitarra dos My Morning Jacket, mas os discos que assina sozinho são outra coisa — menos banda, mais estúdio, mais espaço para se perder. Wowed Out sai pela ATO e vive algures entre o art pop e o neo-psicadelismo: sintetizadores mornos, guitarras tratadas até quase deixarem de ser guitarras, e aquele falsete que ele usa como se fosse um instrumento à parte. São dez canções e a maioria fica abaixo dos quatro minutos, o que dá ao disco um andamento estranhamente leve para uma coisa tão sonhadora. A excepção é "Home (Green)", quase oito minutos de deriva que funcionam como centro de gravidade de tudo o resto. "Baby Dear" abre com uma doçura desarmante e "Rewind It" é o momento mais pop. Um disco de fim de tarde, no melhor sentido possível.
crítica 76
08
Mike D
— Thank You
álbum
LP · 28 ago 2026 · Fontana / Capitol
O Beastie Boy a assinar disco sozinho: hip-hop experimental cruzado com neo-psicadelismo, produção do Carter Lang. Treze faixas curtas, humor intacto, nada a provar.
Trinta e tal anos depois de Check Your Head, Mike D faz o que nunca tinha feito: um disco inteiro em nome próprio. Thank You, pela Fontana/Capitol, não tenta reconstruir os Beastie Boys nem fingir que o tempo não passou — é hip-hop experimental atravessado por neo-psicadelismo, com produção de Carter Lang (o nome por trás de muito do som da SZA) e uma leveza que só tem quem já não precisa de impressionar ninguém. São treze faixas curtas, quase todas abaixo dos três minutos e meio, com o humor e o sentido de colagem que sempre foram marca da casa. "Switch Up" abre em modo directo, "Here We Are" e "True Colors" mostram o lado mais melancólico, e "Secrets" divide-se em duas partes que funcionam como interlúdio. A crítica gostou mais do que o público — normalmente sinal de um disco de detalhes, para ouvir mais do que uma vez.
crítica 72 · utilizadores 64
09
The Linda Lindas
— GOTTA GET OUT
álbum
LP · 28 ago 2026 · Reprise · prod. Carlos de la Garza
Punk de Los Angeles, agora na Reprise e com Carlos de la Garza na produção. Hayley Williams entra em "Closer". Riffs curtos, refrões gritados, zero gordura.
As Linda Lindas começaram como um vídeo viral numa biblioteca de Los Angeles e transformaram-se, disco a disco, numa das bandas de punk mais afiadas da sua geração. GOTTA GET OUT é o primeiro álbum pela Reprise, produzido por Carlos de la Garza (Paramore, Bad Religion), e é também o mais ambicioso: doze canções que continuam curtas e directas mas já sabem quando abrandar. Há riot grrrl, há pop punk, há espanhol misturado com inglês em "Helado de Limón" — um detalhe que diz muito sobre quem são. "Closer" traz Hayley Williams como convidada e é o momento mais imediato do disco; "Everybody Told Me" fecha com quase cinco minutos, o mais perto que já estiveram de uma balada. Refrões gritados, zero gordura, e uma energia que se percebe logo que se pensa nelas em palco.
utilizadores 72